Divulgação: Folha de S.Paulo
(Ciência e Saúde)
10/07/2012 - 06h00
MARCO VARELLA
DE SÃO PAULO
Yoshitaka Fujii, um anestesista japonês, pode se tornar o recordista mundial em publicar estudos científicos que nunca ocorreram.
O doutor da falsificação teve 172 artigos científicos fabricados nos últimos 19 anos. Isso é quase o dobro do atual recordista, o alemão Joachim Boldt, outro anestesista, com 90 fraudes. De mais de dois mil artigos retratados nas últimas quatro décadas, 13% foram de anestesistas.
A Sociedade Japonesa de Anestesiologia constatou inicialmente que Fujii não tinha aval do comitê de ética da sua universidade, o que o impediria de fazer pesquisas com humanos. No entanto, parte dos trabalhos dele traziam dados de pacientes.
Após pesquisar os arquivos de laboratório, das universidades em que ele trabalhou e entrevistar coautores dos trabalhos, foi constatado que somente 3 (três) de 212 artigos dele são verdadeiros. Outros 37 são ambíguos (não dá para saber se são falsos).
Nenhum coautor de Fujii participou das pesquisas. O cientista forjava também pacientes, resultados, administração de medicamentos e parcerias com hospitais.
Como nenhum dos estudos inventados trazia descobertas relevantes, ele conseguiu que suas fraudes passassem despercebidas desde 1993.
Koji Sumikawa, vice-presidente da Sociedade Japonesa de Anestesiologia declarou em um relatório de 29 de junho que as fraudes de Fujii o ajudaram a conseguir empregos na Universidades de Tsukuba e de Toho.
Além disso, o anestesista recebia verbas públicas para seus estudos. Ele também concorreu, sem sucesso, cinco vezes ao prêmio acadêmico da Sociedade Japonesa de Anestesiologia e recebeu auxílio por participar de eventos da sua área.
O orientador de Fujii, Hidenori Toyooka, também está sob suspeita. Mesmo depois de declarar que suspeitava da veracidade de alguns dos artigos de Fujii a uma revista científica, ele não tomou nenhuma providência.
Caso todas as revistas científicas enganadas peçam a retratação dos trabalhos, Fujii será o maior cientista falsário do mundo.
EFEITO CASCATA
Para o biólogo da UnB Marcelo Hermes-Lima, que participa ativamente de debates sobre ética científica, um dos maiores problemas da fraudes na ciência é o efeito cascata dos artigos falsos.
"Os trabalhos são citados e outros pesquisadores começam a usar métodos fraudulentos". No caso de estudos médicos isso tem sérias implicações para a saúde e a vida de pacientes.
"No Brasil, a impunidade reina. Temos a cultura do 'coitadinho' em que os pesquisadores, na maioria das vezes, subestimam o erro e inocentam seus pares", disse Hermes-Lima à Folha.
(Ciência e Saúde)
10/07/2012 - 06h00
MARCO VARELLA
DE SÃO PAULO
Yoshitaka Fujii, um anestesista japonês, pode se tornar o recordista mundial em publicar estudos científicos que nunca ocorreram.
O doutor da falsificação teve 172 artigos científicos fabricados nos últimos 19 anos. Isso é quase o dobro do atual recordista, o alemão Joachim Boldt, outro anestesista, com 90 fraudes. De mais de dois mil artigos retratados nas últimas quatro décadas, 13% foram de anestesistas.
A Sociedade Japonesa de Anestesiologia constatou inicialmente que Fujii não tinha aval do comitê de ética da sua universidade, o que o impediria de fazer pesquisas com humanos. No entanto, parte dos trabalhos dele traziam dados de pacientes.
Após pesquisar os arquivos de laboratório, das universidades em que ele trabalhou e entrevistar coautores dos trabalhos, foi constatado que somente 3 (três) de 212 artigos dele são verdadeiros. Outros 37 são ambíguos (não dá para saber se são falsos).
Nenhum coautor de Fujii participou das pesquisas. O cientista forjava também pacientes, resultados, administração de medicamentos e parcerias com hospitais.
Como nenhum dos estudos inventados trazia descobertas relevantes, ele conseguiu que suas fraudes passassem despercebidas desde 1993.
Koji Sumikawa, vice-presidente da Sociedade Japonesa de Anestesiologia declarou em um relatório de 29 de junho que as fraudes de Fujii o ajudaram a conseguir empregos na Universidades de Tsukuba e de Toho.
Além disso, o anestesista recebia verbas públicas para seus estudos. Ele também concorreu, sem sucesso, cinco vezes ao prêmio acadêmico da Sociedade Japonesa de Anestesiologia e recebeu auxílio por participar de eventos da sua área.
O orientador de Fujii, Hidenori Toyooka, também está sob suspeita. Mesmo depois de declarar que suspeitava da veracidade de alguns dos artigos de Fujii a uma revista científica, ele não tomou nenhuma providência.
Caso todas as revistas científicas enganadas peçam a retratação dos trabalhos, Fujii será o maior cientista falsário do mundo.
EFEITO CASCATA
Para o biólogo da UnB Marcelo Hermes-Lima, que participa ativamente de debates sobre ética científica, um dos maiores problemas da fraudes na ciência é o efeito cascata dos artigos falsos.
"Os trabalhos são citados e outros pesquisadores começam a usar métodos fraudulentos". No caso de estudos médicos isso tem sérias implicações para a saúde e a vida de pacientes.
"No Brasil, a impunidade reina. Temos a cultura do 'coitadinho' em que os pesquisadores, na maioria das vezes, subestimam o erro e inocentam seus pares", disse Hermes-Lima à Folha.

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